sábado, 23 de janeiro de 2010
só um vagão
para ti é só o vagão atravessando a estepe. há muito te esqueceste ou te abstraíste que há uma locomotiva e outros vagões, à frente e atrás do teu. do lado de fora, é só um vagão, o teu vagão, que vês, andando no seu ritmo sonâmbulo, impelido para a frente por fantasmas metálicos, a fricção do ferro dos trilhos e das rodas chispando faíscas, e uma indiferença grandiosa à sua passagem. ninguém vê este vagão?, e perguntas-te como isso é possível, se ele atravessa cidades, vilas, aldeias, cruza pontes, soma fronteiras. ninguém o vê? então como é que tu vais dentro dele e o vês passar? e ninguém o trava?
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
o que me há-de matar
o que me há-de matar é saber que vou errar até ao fim, mil anos que viva. o que me há-de matar é a fome com que devoro o optimismo. o que me há-de matar é uma dor no peito que não se decide a doer. o que me há-de matar é esta espécie de ausência de morte em que vivo.
a placa
fechei para o mundo. como uma loja que não tem mais a quem vender a sua mercadoria obsoleta e sem préstimo. sapato sem par. perfume sem cheiro. riso sem esperança. futuro sem infância. fechei para o mundo e coloquei uma placa na porta que diz: já não volto.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
sangria
dor que se esvai
numa sangria
e vermelho que é
e dor que não fosse
olhar destreinado
quase diria
vinho entornado
da alegria
numa sangria
e vermelho que é
e dor que não fosse
olhar destreinado
quase diria
vinho entornado
da alegria
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
peso, fim
qual é o peso do peso? pergunto, subjugado que estou à força de um peso insuportável, sabendo embora que há pesos mais insuportáveis que o meu. onde é o fim do fim? e a resposta paira nesse sítio e eu tenho o peso do medo que me impede de buscá-la.
sábado, 12 de dezembro de 2009
branco carvão
o carvão risca a parede branca com um grito de raiva. compreendo o carvão. compreendo a parede. só não compreendo quem ameaça quem, qual dos dois é o verdadeiro agressor, se é que alguém agride na manifestação da sua natureza. carvão e parede branca. um risco é sempre um risco.
sábado, 5 de dezembro de 2009
fel
o espaço preenche-se de pequenas presenças e grandes ausências. o tempo, esse, é mais difícil de ser preenchido. e tu sabes isso porque tens com o tempo uma relação hostil, de irmão desavindo, um ressentimento como um cano roto, gotejando fel.
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