sexta-feira, 27 de agosto de 2010
contigo
hoje viajei contigo. ias no lugar reservado à inocência, à janela. olhavas a paisagem e ias comentando o que te chamava mais a atenção. um líquen numa estátua. uma fresta num muro. uma cicatriz numa árvore. uma inveja num gesto. tudo coisas à vista de todos, visões óbvias, mas que só tu, do lugar especial que sempre ocupas, poderias ver. e quando desviavas o olhar da janela e me olhavas, não dizias nada. um tumulto na quietude.
sábado, 24 de julho de 2010
teste
a viagem põe à prova o viajante. não os obstáculos da viagem, ou a distância, ou as agruras e difuldades imprevistas. é a viagem o grande teste. é a viagem.
domingo, 27 de junho de 2010
o tempo à janela
o comboio tem o dom da pontualidade. não é só um meio de transporte, como os outros. ele transporta o tempo nas suas carruagens. o tempo verga-se ao comboio. toma horas para chegar à estação, compra o bilhete, espera o necessário e estipulado no horário - ou apressa o passo para não se atrasar - e, chegado o momento, sobe os degraus metálicos e toma o seu lugar. e então deixa transportar-se, porventura descansando um pouco. enquanto a viagem dura, sabe que pode confiar no misterioso maquinista, sabe que a terra faz o seu movimento regular, que não haverá atrasos nem antecipações. o tempo viaja de comboio. eu próprio o vi. ia num lugar à janela. parecia dormitar.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
fé
fazes da espera uma profissão de fé. é o que te resta, agora que não tens trabalho nem esperança.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
quarta-feira, 5 de maio de 2010
conforme
tu olhas para as possibilidades e vês coisas. vês o que pode advir delas, o bom e o mau, o desejado e o indesejado, e vês também as coisas que vão ficar por acontecer porque elas, as possibilidades, não se concretizam. tu vês coisas, ouves coisas, sentes coisas. tens com o futuro uma relação de primo. suficientemente próxima, suficientemente afastada para te envolveres com ele. conforme.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
um dia
algures na infância ficou a obediência. hoje, ainda não tenho maturidade para a disciplina, apenas para a rotina. e há-de vir um dia em que ouvirei "morre", e eu morrerei obedientemente, rotineiramente, disciplinadamente. como uma síntese.
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