sábado, 1 de janeiro de 2011

face

existe a impossibilidade do recomeço como a impossibilidade de outra virtude qualquer. falo por mim, e falar por mim é quase um peso insuportável, um fardo difícil de aguentar, um cinto de cilício que me deixa a alma áspera e em ferida. começar pressupõe uma inocência a que perdi o direito. não há inversão redentora, não há reverso possível nesta moeda de uma só face. sou eu, e só eu, seja de que lado me olhe, seja de que perspectiva me veja. e esta superfície plana e unilateral é um desespero de dias e dias sem fim.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

cilada

tristeza, o gosto amargo da cilada. está-se bem, a dor amortecida por um sol de inverno, um sorriso da filha, uma harmonia na sala. e súbito, abre-se um buraco no chão e cai-se na tristeza. ou abre-se um buraco em nós e é a tristeza que nos cai em cima. sem dar por nada, parecia (ou queríamos que parecesse?) que o caminho era penoso mas seguro. sem alçapões dissimulados por tapetes, sem poços cobertos por folhagem, sem traições ocultas por sorrisos. mas não há caminhos seguros para se escapar à tristeza quando a alegria é frágil como a chama de uma vela. numa curva do caminho, ela surge, salteadora, para te roubar o pouco alívio que te resta.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

(festa)

a chuva montou um lago nas traseiras do jardim. apareceram gansos, contrataste dois cisnes, despejamos para lá os peixes dourados do aquário das meninas. viemos cá para fora os cinco, de fatos de banho, galochas e tu com uma sombrinha brasileira. fizemos uma dança da chuva. só pela dança, porque a chuva já lá estava.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

regresso

a casa é um regresso. uma construção de partidas e chegadas. braços abertos, rostos fechados, conforme. uma edificação de sombras, sustentada numa amálgama de cimento-sentimento-ressentimento e água de lágrimas. a casa, com todas as brechas, todas as fugas, todas as fendas, é o regresso que me traz, para sempre, a ti.

domingo, 10 de outubro de 2010

outono

o frio começa a entrar pelas frestas das janelas, às vezes um pouco de chuva empurrada pelo vento consegue penetrar pelas juntas, e é quase um alívio, depois do fogo do verão. a viagem vai ser agora um pouco mais anoitecida, um pouco mais fria, mitigada por um casaco mais grosso, uma respiração com bafo, uma caneca de chá fumegante que só bebo quando arrefece.