segunda-feira, 7 de maio de 2012

sob as minhas veias corre um rio

Sob as minhas veias corre um rio
Rio de nada, nervos e aço
Subterrâneo, estranho e frio
Num leito estéril, seco, escasso.

Afluentes do desejo e do medo
Desaguam nesse rio já sem voz
Afogados nas águas de um segredo
Nascido na turbulência da foz.

Das margens crescem sonhos como teias
Prisioneiros de si mesmos nesse fio
Que tece, ensanguentadas, minhas veias.

Não há sonho que resista a esse rio.
Esperança arrastada pelas cheias
Que brotam, violentas, do vazio.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

agenda

tinhas a tua vida na agenda, a agenda na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira ao lado da cama, a cama no quarto, o quarto na casa, a casa na tua vida, a tua vida na agenda. um círculo perfeito. não, uma espiral, uma escada de escher, um infinito de trazer por casa. tinhas a tua vida na agenda. um dia saíste para a rua e apercebeste-te que não trazias a tua agenda. e percebeste que tinhas a tua vida de volta. não voltaste à tua casa, ao teu quarto, à tua cama, à mesinha-de-cabeceira, à agenda. voltaste à vida.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012

perguntas mais frequentes

se a tua resposta for "não sei", qual será a pergunta? se a pergunta for "e agora?", qual será a tua resposta? se a resposta não importar a ninguém, a quem importa a tua pergunta?

waiting for a train - hugh laurie

terça-feira, 6 de março de 2012

herança

instruíste os teus filhos na arte do cinismo e da ironia apenas para dotares o teu futuro de um diálogo inteligente. poderias ter escolhido o amor. mas a ti não te interessava a descendência, interessava-te o conceito mecânico da transmissão dos genes. a herança que deixas aos teus filhos é isso: um edifício por habitar. não uma casa de família.