domingo, 21 de março de 2010
a aranha
o engano é uma aranha laboriosa, paciente e engenhosa, tecendo a sua teia nas esquinas da realidade. sabes do que falas porque te enredas demasiadas vezes nessa teia, demasiadas vezes ficas suspenso nessa esquina, pendendo da realidade.
terça-feira, 2 de março de 2010
fenda
uma fenda enorme interpôs-se entre ti e o futuro, o teu futuro. os dias passam mas a distância entre vós não se reduz à medida que avanças futuro dentro, ainda que tenhas a determinação de um exército avançando em território que quer subjugar. porque o futuro recua à medida que tu avanças, e recuará sempre de cada vez que tu avances, e quanto tu mais avançares mais o futuro recuará. essa é a fenda, a fenda é o teu presente.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
coração ou inferno
ninguém sabe ao certo o que irá ser lembrado quando o futuro tiver reduzido a cinzas o que hoje te consome. tu não sabes do que te lembrarás. nem saberás o que fazer das tuas memórias, ou em que lugar do coração ou do inferno as guardarás.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
o frio permanecerá
o teu gulag de gelo, de nevoeiro e de distância. e o gelo derrete-se, o nevoeiro dissipa-se, a distância encurta-se. o frio permanecerá por mais tempo, tu sabes isso, só não sabes por quanto tempo, se muito, se pouco. o teu gulag, o murro no estômago, o enjoo, o acidente que te deixa numa entorpecedora invalidez por dentro. o teu gulag, o teu caminho feito de gelo, nevoeiro e distância.
sábado, 23 de janeiro de 2010
só um vagão
para ti é só o vagão atravessando a estepe. há muito te esqueceste ou te abstraíste que há uma locomotiva e outros vagões, à frente e atrás do teu. do lado de fora, é só um vagão, o teu vagão, que vês, andando no seu ritmo sonâmbulo, impelido para a frente por fantasmas metálicos, a fricção do ferro dos trilhos e das rodas chispando faíscas, e uma indiferença grandiosa à sua passagem. ninguém vê este vagão?, e perguntas-te como isso é possível, se ele atravessa cidades, vilas, aldeias, cruza pontes, soma fronteiras. ninguém o vê? então como é que tu vais dentro dele e o vês passar? e ninguém o trava?
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
o que me há-de matar
o que me há-de matar é saber que vou errar até ao fim, mil anos que viva. o que me há-de matar é a fome com que devoro o optimismo. o que me há-de matar é uma dor no peito que não se decide a doer. o que me há-de matar é esta espécie de ausência de morte em que vivo.
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